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O BOER BRASILEIRO

09.04.2018 00:00:00
O BOER BRASILEIRO

O BOER BRASILEIRO


O brasileiro possui uma aptidão natural para seleção de animais. Esta constatação parte-se da observação de que as principais raças da pecuária de corte e leite do país são importadas, a exemplo do Nelore, Brahma, Guzerá; Sindi, Gir, etc, ou como dizem os especialistas, “são exóticas”. Acontece que tropicalizamos estas raças, e hoje, o nosso país é referencia mundial na pecuária de corte, com um dos maiores rebanhos do mundo, além de ser um grande exportador de genética zebuína. A seleção e o melhoramento genético do rebanho nacional já são uma realidade, e a utilização de animais comprovadamente melhoradores é prática usual na maioria dos rebanhos.

Quando se fala em caprinos Boer, todos lembram automaticamente da África do Sul, como não poderia deixar de ser, já que é o país onde “nasceu” o Boer - a partir de uma seleção criteriosa em suas cabras nativas. Hoje, praticamente todos os países compram embriões sul-africanos, e como estratégia comercial alguns grandes e famosos criadores daquele país possuem parcerias ou mesmo propriedades na Austrália ou Nova Zelândia, tendo em vista maiores facilidades nos protocolos de exportação.

O Brasil foi e ainda é um grande importador de material genético da raça boer, sempre buscando o melhoramento da raça. Do boer sul-africano importamos suas virtudes de carcaça e muito peso. Do boer canadense importamos profundidade e habilidade maternal. Do boer americano importamos precocidade e alta fertilidade. Além de termos importado animais da Nova Zelândia e da Alemanha.

Dentro deste contexto, é possível detectar a notável variedade de material genético desejável ao plantel nacional. Variedade esta que pode ser explorada através de mensurações em provas de desempenho e eficiência funcional. Então pergunto: “o que os criadores e selecionadores brasileiros estão fazendo com esta variedade genética?”. E ouso responder, que excetuando alguns poucos rebanhos, que praticamente nada. Hoje, ainda somos meros multiplicadores da genética alheia. É duro, mas é a realidade.

Quem, dentre criadores com razoável conhecimento da raça, não saberia distinguir um reprodutor sul-africano, de um americano e de um canadense?

Então vem a pergunta crucial: “Qual a identidade do boer brasileiro?”

Como será o nosso posicionamento no mercado mundial de genética da raça boer a médio e longo prazo, se continuarmos sempre um passo atrás produzindo mais do mesmo?

Quem de nós pagaria o mesmo preço por uma camisa de marca e uma camisa sem identidade própria, mesmo que ela seja confeccionada dentro das mesmas especificações e sejam idênticas? Pois é. Acho que ninguém.

Ninguém irá valorizar qualquer produto que não tenha uma identidade, uma característica própria.

O mesmo acontecerá com o nosso boer se não nos posicionarmos no mercado com identidade própria. Identidade esta, que deverá ter como base uma caracterização racial bem definida; como também, e talvez o mais importante, a meu ver, com características próprias, hábitos alimentares, comportamento especifico e reprodutivo adequados ao meio-ambiente dos campos tropicais, e que com isso consigamos um animal adaptado e lucrativo.

Isso mesmo, temos tudo para desenvolver um boer tropicalizado; e desta forma ser um potencial fornecedor de genética aos países com características similares.

“Os erros e os acertos dos criadores são o melhor material para o estabelecimento das regras, dos princípios, das leis a serem formuladas pelos zootecnistas que, ao generalizar, estão fazendo ciência”, diz Domingues (1975). Esta frase consolida o dito: “A ciência nada mais é que a sistematização da prática.”

Não há lugar para desajustamentos na seleção: ou o animal é adaptado ao meio ambiente, ou muito pouco valerá uma seleção zootécnica.

Há dois ditados importantes que definem, com exatidão, o casamento da Zoologia com a Zootecnia nos trópicos:

1) O caminho do meio é o caminho mais acertado;
2) O ótimo é inimigo do bom.

Esses ditados, extraídos da sabedoria indiana e muito utilizada pelo sertanejo do nordeste brasileiro, exemplificam que o animal precisa ser adequado ao meio ambiente, antes de ser um excelente produto para carne ou leite.

Ou mesmo, como afirma o nosso amigo Toninho Valadares (criador e jurado de pista): “Rebanho se faz com média”. É importante refletir sobre isso.

Sendo assim, é possível observar que após inúmeras importações de animais da raça Boer da África do Sul, da Austrália, do Canadá, dos Estados Unidos, etc.; tanto de animais vivos como de embriões (frutos do acasalamento dos melhores animais disponíveis naqueles países); poucos foram os que conseguiram fixar em seus descendentes, características realmente melhoradoras para o rebanho nacional.

Pureza racial é uma coisa e pureza genética é outra. Um reprodutor registrado é indiscutivelmente portador de pureza racial. Mas seria ousadia atribuir-lhe pureza genética com a mesma segurança?

O que faz, com que, ao escolhermos acasalar os melhores dentre os melhores não tenhamos descendentes compatíveis?

Creio que chegou a hora de desenvolvermos e propagarmos o boer tropical. Um animal adaptado aos trópicos e que consiga suprir esta lacuna no mercado mundial. O Brasil precisa marcar seu lugar neste mercado, pois corremos o risco de continuarmos sendo coadjuvantes.

O que falta então?

Creio que apenas união e vontade dos criadores e associações, pois o “norte” racial já foi definido, este que era um dos grandes impasses dos criadores.

E este norte foi conquistado após um trabalho longo e árduo executado pela ABCBoer – Associação Brasileira de Criadores de Caprinos Boer; aprovando junto a ABCC – Associação Brasileira de Criadores de Caprinos e o MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento um NOVO PADRÃO RACIAL para a raça boer no Brasil; cujas alterações e adaptações no padrão atenderam aos anseios da grande maioria dos criadores nacionais.

Então chegou a hora de multiplicarmos e selecionarmos dentro das exigências e especificidades deste novo padrão, um boer exemplar e que desperte cobiça aos outros criadores do globo, e que possibilite ao Brasil conquistar um merecido espaço entre os principais criadores de boer do mundo, disponibilizando ao mercado um produto diferenciado, lucrativo e de características impar, um boer tropicalizado, o Boer Brasileiro.

Fabrício Zaccara Lombardi
Criador de Caprinos Boer
 

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